segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Carteirada

"Você por acaso sabe com quem está falando? Eu sou Fulano de Tal, doutor em qualquer assunto e filho de Beltrano, dono da maior empresa de coisas x que existe nesse país..." e por aí vai, a carteirada sempre começa assim e na maioria das vezes acaba sem finalidade alguma.
Com o propósito de intimidar seu receptor, a carteirada é utilizada no Brasil desde a chegada dos portugueses nessa nossa terra, os famosos "amigos do rei".

Hoje, quando fui ao correio levar algumas encomendas da livraria em que trabalho, a atendente anunciou:
"O sistema está um pouco devagar, gostaria da colaboração e paciência de todos", claro que houve aquele burburinho de gente que não aguenta mais esperar e quer se livrar logo daqueles afazeres burocráticos de 'pega aquela fila, senhor', 'assina aqui por favor', 'pegue a senha e aguarde mais alguns minutos que iremos te atender'...aquele blá blá blá de sempre. Mas no meio do burburinho uma senhora se levantou e foi ao encontro da moça que acabara de anunciar a falha no sistema:
- Isso daqui é uma palhaçada, estou esperando horas pelo atendimento! Vou atrás dos meus direitos...
A atendente ficou sem reação, mas tentou conter a mulher e explicar que a falha no sistema logo seria resolvida e ela seria prontamente atendida. Em seguida o filho da senhora, também levantou-se e o escândalo estava armado. Ele, um homem de quase 2 metros de altura, com um enorme pacote nos braços, engrossou a voz e encurralou a atendente na porta de sua pequena sala e disse-lhe:
- Vocês estão de brincadeira, só pode! Acham que não sabemos de nada. Falha no sistema coisa nenhuma, vocês não querem atender a gente, mas nós vamos atrás dos nossos direitos.
A moça prontamente disse que aquilo ali não era frescura nem preguiça era problema no sistema mesmo e ele teria que esperar como todos. Ele deu mais uma engrossada na voz e falou num tom mais elevado:
- Eu sei que não é problema no sistema e sabe porquê? Eu sou doutor em física teórica e entendo disso muito bem.
Algumas pessoas olharam pra ele, talvez com a mesma pergunta que estava na minha cabeça "O que tem a ver um doutor em física teórica com a falha no sistema, a demora no atendimento ou qualquer coisa que envolvia aquela situação?"
Eu acabei rindo na frente daquela pobre alma. Ou talvez a pobre alma seja a minha, tão ignorante que não conseguiu entender a finalidade daquela carteirada...
Bem, de qualquer forma, como a maioria das carteiradas acabam por ser jogadas no vácuo de uma conversa, aquela ficou no silêncio das pessoas que esperavam o sistema voltar seu funcionamento normal e aquele homem que tentou "botar a banca" acabou por ficar ali, no mesmo lugar onde tentara intimar a funcionária do local, segurando seu imenso pacote nos braços.

Nenhum comentário:

Postar um comentário